Desde julho de 2026, um carro elétrico importado paga 35% de imposto de importação ao entrar no Brasil. É o teto da tabela e fecha o cronograma de recomposição iniciado em 2024. Os híbridos importados estão na mesma alíquota.
A surpresa está no que veio depois. As vendas não caíram: agosto bateu recorde de volume (57.386 unidades) e de participação (21,8%), segundo a ABVE. E em setembro, 62% dos eletrificados vendidos ainda eram importados prontos.
Como chegamos aos 35%
Durante anos, elétricos importados entraram no Brasil praticamente sem imposto de importação. Em novembro de 2023, o Gecex, comitê da Câmara de Comércio Exterior (Camex), publicou no Diário Oficial da União uma recomposição em quatro degraus. Cada tecnologia começou de um ponto diferente, e todas chegaram aos 35% em julho de 2026.
| Data | Elétrico (BEV) | Híbrido plug-in (PHEV) | Híbrido (HEV) |
|---|---|---|---|
| Janeiro de 2024 | 10% | 12% | 15% |
| Julho de 2024 | 18% | 20% | 25% |
| Julho de 2025 | 25% | 28% | 30% |
| Julho de 2026 | 35% | 35% | 35% |
Fonte: resolução Gecex/Camex publicada no DOU em 23/11/2023, segundo a LegisWeb e a AutoData.
A resolução também criou cotas de importação sem imposto, que encolhiam a cada ano. Para elétricos, o limite foi de US$ 283 milhões no primeiro período, US$ 226 milhões no segundo e US$ 141 milhões no último, que terminou em 30 de junho de 2026. Desde julho, não há mais cota: todo eletrificado importado pronto paga a alíquota cheia.
Para o presidente da ABVE, Ricardo Bastos, o governo cumpriu o que prometeu. Em entrevista à AutoData em julho, ele disse que "35% é uma baita proteção" e que o risco maior para o setor é mudar as regras no meio do jogo, não o tamanho da tarifa.
Efeito no preço: menor do que se temia
A lógica do imposto é simples: encarecer o importado para tornar a fábrica local mais competitiva. No preço de vitrine, o efeito ficou diluído pela concorrência.
Segundo a consultoria Indicata, os preços de elétricos novos caíram com a chegada de mais marcas, o que inclusive derrubou o valor de alguns usados. Ao mesmo tempo, segundo a ABVE, havia 403 modelos eletrificados de 66 marcas à venda até setembro, alguns abaixo de R$ 100 mil. Mais oferta segurou o repasse.
Isso não quer dizer que o imposto não pese. Quer dizer que ele pesa mais na margem das marcas e na decisão de onde fabricar do que na etiqueta. Um exemplo: segundo apuração da Quatro Rodas publicada pelo Vrum, a BYD só vai lançar a picape híbrida Mako depois de começar a produzi-la no Brasil, justamente para fugir dos 35% sobre híbridos importados.
Importado ainda domina, mas a fábrica nacional cresce
Em setembro, carros feitos no Brasil ou montados aqui a partir de kits (CKD e SKD) foram 38% dos eletrificados vendidos, segundo a ABVE. Os importados prontos ficaram com 62%. No acumulado de janeiro a setembro, a divisão é de 35% para 65%.
Gráfico: Eletrificado, dados de ABVE, setembro/2026
| Origem dos eletrificados | Setembro/2026 | Janeiro a setembro/2026 |
|---|---|---|
| Nacionais ou montados no Brasil (CKD/SKD) | 38% | 35% |
| Importados prontos | 62% | 65% |
Fonte: ABVE, apresentação no seminário AutoData de 20/10/2026.
O motor dessa virada é Camaçari (BA). A fábrica da BYD foi inaugurada em outubro de 2025, opera em um turno e produziu mais de 130 mil carros no primeiro ano, segundo o AUTOO. De lá saem Dolphin Mini, King, Song Pro e Atto 2. A capacidade atual é de 150 mil veículos por ano, com meta de 300 mil.
Hoje a maior parte desses carros é montada com componentes que chegam prontos. Os galpões de soldagem e pintura estão em testes finais, e a estamparia ainda está em obras, segundo o Canal VE. A meta é ter produção nacionalizada no início de 2027.
A BYD não está sozinha. Segundo a AutoData, a Comexport começou a montar o Chevrolet Spark EUV em Horizonte (CE) em dezembro de 2025, a partir de kits semidesmontados (SKD), e também vai montar o Captiva EV. Não por acaso, o elétrico mais vendido do país, o Dolphin Mini, sai de uma linha brasileira, como mostra nosso ranking de setembro.
Mover e o próximo capítulo
O imposto é só uma ponta da política. A outra é o Mover (Mobilidade Verde e Inovação), programa federal que incentiva pesquisa, desenvolvimento e descarbonização na indústria automotiva. Bastos defende um "Mover 2" e lembra que o imposto seletivo da reforma tributária começa a valer em janeiro de 2027. Segundo ele, a produção local ainda depende de componentes importados e precisa de volume para que fornecedores se instalem aqui.
A próxima leva de lançamentos confirma a direção. O BYD Dolphin G, mostrado no Salão de Paris, deve ser feito em Camaçari, e o novo Hyundai Bayon, em Piracicaba (SP), segundo a imprensa. Veja os carros de Paris com chance de vir ao Brasil.
O que isso significa para você
Para quem compra agora, o imposto de 35% já está no preço. O cronograma terminou no teto, então esperar não protege contra aumento por esse motivo.
Na hora de escolher, o carro montado no Brasil tende a ter preço mais estável e peças mais à mão. O importado pode trazer mais tecnologia pelo mesmo valor, mas fica mais exposto a câmbio e a qualquer mudança de regra. Compare as opções na lista dos elétricos mais baratos do Brasil e faça a conta de uso na nossa calculadora de custo por km.
Fontes
- Olhar Digital: importar carros elétricos vai ficar mais caro a partir de 1º de janeiro (31/12/2023)
- LegisWeb: retomada de tributação para veículos eletrificados é oficializada pelo DOU (28/11/2023)
- Paraíba Business: eletrificados conquistam 21% do mercado e podem chegar a 450 mil (12/08/2026)
- AutoData: ABVE prevê que eletrificados cheguem a 30% do mercado em 2030 (29/07/2026)
- AutoData: ABVE prevê que eletrificados alcancem 30% das vendas de veículos leves em 2027 (20/10/2026)
- ABVE: Eletrificados leves ultrapassam a marca de 1 milhão de unidades vendidas no Brasil (08/10/2026)
- AUTOO: BYD avança rumo a produção nacional, com testes finais em fábrica na Bahia (23/10/2026)
- Canal VE: Fábrica da BYD avança em testes finais de soldagem e pintura (23/10/2026)
- Vrum: BYD Mako será lançada até novembro e terá produção nacional (06/08/2026)
- AutoData: Comexport inicia a operação no Ceará com dois modelos Chevrolet (03/12/2025)
- AutoData: governo retoma imposto de importação de eletrificados, com cronograma e cotas (10/11/2023)
- Canal VE: Indicata analisa a desvalorização dos carros elétricos no Brasil (20/10/2026)
- Webmotors WM1: Brasil passa de 1 milhão de carros eletrificados (cita o programa Mover)