Carro elétrico não pega fogo com mais frequência do que carro a combustão: na Suécia, a taxa de incêndio em 2022 foi de 0,004% entre elétricos e híbridos plug-in e de cerca de 0,08% na frota total. Esse é só o primeiro de dez mitos e verdades que checamos com número e fonte.

O carro elétrico chegou ao Brasil carregado de opiniões. Algumas são velhas, outras foram importadas de países frios, e outras são simplesmente verdade. A regra aqui é uma só: cada veredito tem um dado por trás.

Mitos e verdades: o placar

# Afirmação Veredito O número
1 Elétrico pega fogo mais que carro a combustão Mito 0,004% x 0,08% de incêndios (Suécia, 2022, MSB)
2 A bateria morre em poucos anos Mito Perda média de 2,3% ao ano (Geotab)
3 A energia da recarga é suja Mito (no Brasil) 86,8% da eletricidade é renovável (EPE, 2025)
4 Elétrico gasta mais na estrada que na cidade Verdade Dolphin Mini GS: cerca de 28% menos eficiente na estrada (Inmetro)
5 Calor e ar-condicionado acabam com a autonomia Depende Frio extremo pesa muito mais que o calor (Geotab)
6 Não há onde carregar no Brasil Depende 29.866 pontos públicos, 21,4 plug-ins por ponto (ABVE)
7 Carregar em casa sai caro Mito Cerca de R$ 11 a cada 100 km (estimativa com a mediana ANEEL)
8 Trocar a bateria custa metade do carro Depende Estimativa de R$ 60 mil a R$ 80 mil no Dolphin, mas troca é rara
9 Elétrico não precisa de revisão Mito BYD exige revisão a cada 12 meses ou 20.000 km
10 Nunca carregue até 100% Depende BYD recomenda 100% uma vez por semana em baterias LFP

1. "Elétrico pega fogo mais": Mito

Os dados mais citados vêm da Suécia, um dos países com mais elétricos por habitante. Em 2022, a agência sueca de contingências civis (MSB) registrou 23 incêndios em 610.716 elétricos e híbridos plug-in (0,004%). No mesmo ano, cerca de 3.400 carros de passeio pegaram fogo no país, contando incêndios criminosos: perto de 0,08% de uma frota de 4,4 milhões. Em 2024, segundo o levantamento mais recente da agência, foram 40 incêndios em carros elétricos e híbridos, com uma frota ainda maior. Uma base global, a EV FireSafe, contou 393 incêndios verificados em cerca de 30 milhões de elétricos entre 2010 e meados de 2023.

O que é verdade: quando uma bateria de lítio pega fogo, o incêndio é mais difícil de controlar. Por isso os bombeiros estão criando regras para garagens. Alagoas, por exemplo, passou a exigir em outubro de 2026 que a recarga seja cortada automaticamente quando o alarme de incêndio dispara.

2. "A bateria morre em poucos anos": Mito

Num estudo da Geotab com mais de 22,7 mil elétricos, a perda média de capacidade foi de 2,3% ao ano. Depois de 8 anos, a bateria guarda cerca de 81,6% da capacidade original. Nos EUA, dados da Recurrent divulgados pelo Departamento de Energia mostram que menos de 1% dos elétricos fabricados entre 2016 e 2023 precisaram trocar a bateria por falha. Detalhes e garantias por marca no nosso guia de vida útil e garantia da bateria.

Ilustração das células alongadas da bateria Blade da BYD, lado a lado Células da bateria Blade, de química LFP, usada pela BYD. Divulgação/BYD

3. "A energia da recarga é suja": Mito (no Brasil)

Em países que queimam carvão para gerar eletricidade, o argumento tem peso. No Brasil, não. Segundo o Balanço Energético Nacional da EPE, 86,8% da eletricidade gerada em 2025 veio de fontes renováveis. Eólica e solar somaram 26,4% da geração, e o setor elétrico emitiu 64,8 kg de CO2 equivalente por MWh.

4. "Elétrico gasta mais na estrada": Verdade

É o contrário do carro a combustão, que bebe mais na cidade. No elétrico, a frenagem regenerativa recupera energia no anda e para, enquanto a resistência do ar cresce com a velocidade na rodovia. Pelo Inmetro, o BYD Dolphin Mini GS faz o equivalente a 58,6 km/l na cidade e 41,9 km/l na estrada: cerca de 28% menos eficiente. No Geely EX2, a diferença é de 25%; no BYD Dolphin GS, de 16%.

5. "Calor e ar-condicionado acabam com a autonomia": Depende

Em dados de 4.200 elétricos e 5,2 milhões de viagens, a Geotab encontrou o melhor rendimento perto dos 21 °C, quando os carros chegaram a cerca de 115% da autonomia nominal. Eles entregaram 100% ou mais entre 10 °C e 31 °C. Acima disso, a autonomia cai, mas o estrago do frio é maior: a -15 °C, a média foi de 54%. No clima brasileiro, o ar-condicionado tira autonomia, mas está longe de cortá-la pela metade.

6. "Não há onde carregar": Depende

Segundo a ABVE e a Tupi, o Brasil tinha 29.866 pontos de recarga públicos e semipúblicos em agosto de 2026, 76,9% a mais que um ano antes. Desses, 11.397 eram de recarga rápida (DC). São 21,4 carros plug-in por ponto. A rede está concentrada no Sul e no Sudeste: só São Paulo tem 7.864 pontos. Viajar exige planejamento; veja como funciona a recarga rápida na rodovia.

7. "Carregar em casa sai caro": Mito

Com a tarifa residencial mediana da ANEEL (R$ 0,81 por kWh sem impostos, cerca de R$ 0,99 com os tributos médios), rodar 100 km com um BYD Dolphin Mini GS custa em torno de R$ 11, segundo nossa estimativa com o consumo do Inmetro. A conta por distribuidora está no guia quanto custa carregar carro elétrico em casa.

8. "Trocar a bateria custa metade do carro": Depende

As marcas não publicam preço. Reportagens de 2026 estimam de R$ 60 mil a R$ 80 mil para a bateria de 44,9 kWh do BYD Dolphin, um carro que custa R$ 149.990 na versão GS (tabela da BYD em outubro de 2026). A conta assusta, mas é a exceção: a bateria tem garantia de 8 anos na maioria das marcas, e reparos costumam ser feitos por módulo.

9. "Elétrico não precisa de revisão": Mito

Não há troca de óleo do motor, velas, filtro de combustível nem correia. Mas freios, pneus, suspensão, ar-condicionado e software precisam de atenção. A BYD exige revisão a cada 12 meses ou 20.000 km na maioria dos modelos para manter a garantia, segundo a CNN Brasil.

10. "Nunca carregue até 100%": Depende

A regra dos 20% a 80% vale sobretudo para baterias de níquel (NMC). Nas de lítio-ferro-fosfato (LFP), usadas pela maioria dos elétricos chineses, a recomendação muda: a BYD pede carga completa pelo menos uma vez por semana para calibrar o indicador. Já a Geely sugere 20% a 80% no EX2 e a GAC, 30% a 80% no Aion UT, segundo o Canal VE. O manual do seu carro vale mais que qualquer regra geral.

BÔNUS: A TOMADA COMUM SERVE?

  • Em casa, com tomada dedicada e aterrada, serve, mas desperdiça mais: o ADAC mediu perdas de 12,7% a 24,2% na tomada, contra 5,1% a 7% numa wallbox.
  • Em garagens cobertas de prédios, São Paulo (desde março de 2026) e Alagoas (desde outubro de 2026) só permitem carregador fixo, os chamados modos 3 e 4, segundo os Corpos de Bombeiros dos dois estados.

Fontes